PORTUGUESA, PORTUGUESA!

Içada em meu coração
sem precisar de razão
para senti-la e amá-la,
a bandeira portuguesa
dentro de mim anda acesa
e em silêncio me fala.
Flutua e linda regala
à brisa que me embala
em cada fado que canto;
seu mastro é a guitarra
onde minha voz se agarra
e faz asas do seu manto.
Musa-cores de meu encanto
se me deito ou me levanto,
meu lençol e meu vestido;
com ela sou caravela,
canoa, rabelo à vela
nos rios do meu sentido.
Em meu berço foi condão,
na minha vida é timão,
e há-de ser concerteza
à flor da minha pele
meu derradeiro dossel,
portuguesa, portuguesa!...
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CANTA-ME AQUELE FADINHO

Ao fado que é e não é,
- É a vida!... Diz o Zé,
Zé-Povinho conformado,
que após tanta canseira
por tão benquista maneira
resume inteiro seu fado.
- É a vida!... E desolado
desabafa em tom magoado
os sonhos que não logrou,
quando sente o desencanto
no tempo que entretanto
sem dar por ele passou.
Os almejos que sonhou,
que conseguiu ou falhou,
de saudade iluminado,
recorda pra consolar-se
e com prazer embalar-se
nas memórias do passado.
- É a vida!... E com agrado,
em louvor arrebatado
ergue ao mundo seu copinho,
saúda e oportuno
pede sincero: - Ó Nuno,
Canta-me aquele fadinho!...
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DE MIM PARA TODOS

Quand' um dia dei por mim
e avaliei enfim
meu lugar, minha guarida,
senti à flor do peito
que a virtude e o defeito
se casam pra toda a vida.
O meu avô Barnabé,
figura impante da Sé,
homem de guerra e de paz,
era o laço dos afectos
qu' unia os filhos e netos
da família Ferraz.
Meu saudoso tio Augusto
cuja memória ilustro
com ternura e encanto,
parece ainda tocar
nesta viola a marcar
o fado que agora canto.
O fado, sina ou destino,
que herdei desde menino
e que tanto me comove,
vem da rua de Santana
onde a saudade me chama
na porta número nove.
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